Estudante do primeiro ano de Geografia da USP.
Ainda que recentemente se admita que o espaço terrestre era seguramente, e por definição, o próprio objeto das investigações da Geografia, esta idéia era aceita sem contestação e não sem desdém. Aliás os seus trabalhos suscitavam apenas algum interesse fora dos meios restritos da Universidade.
Hoje a Geografia é acusada de todos os lados: censura-se-lhe por permanecer essencialmente descritiva, sem ter em conta a explicação científica; de não "ser nem plenamente segura de seus métodos nem, menos ainda, estar de posse de um domínio perfeitamente reconhecido. A Geografia científica não se constituiu por conquistas laterais ou expedições marginais, mas sim em áreas, vizinhas e já ocupadas..." ( Fernand Brudel, Écrits sur l’histoire, Flammarion, 1969, p. 171)
De fato, recebem o nome de geográficas as investigações que dependem indiscutivelmente da geologia, da pedologia, da climatologia, da hidrologia, da botânica, da demografia, da sociologia, da economia e até mesmo da história. Os próprios geógrafos trazem argumentos ao processo: desde seu primeiro número, a revista Heródoto, a alergia à reflexão teórica que reveste a maior parte das vezes o aspecto de indolência e de preocupação em evitar toda a polemica teórica, a carência epistemológica de que fazem prova os geógrafos. Outros reafirmaram que a sua epistemologia é ridícula.
A verdade é que entre os geógrafos de boas "maneiras" se proibiram as discussões que correm o rico de pôr em causa o dogma da sacrossanta unidade da Geografia livre, mas logo que se trate de repartição de verbas de investigação é vê-los a dividirem-se em dois grupos hostis: os físicos de um lado, os humanistas de outro.
Desacreditada a Geografia, alguns irão ao ponto de declarar que deverá desaparecer para dar lugar a uma disciplina a criar: a ciência do espaço. Como, pois, admirar-se que seja excluída das ciências do homem por aqueles que fazem questão em estabelecer a sua epistemologia?
Ora, o conhecimento científico do espaço passou a ter uma grande importância estratégica; mais do que nunca, com efeito, o espaço é o campo das diferenciações, das contradições, das tenções, das competições, o jogo entre os grandes sistemas econômicos e políticos que disputam entre si o domínio da terra.
Hoje, várias disciplinas dedicam-se a analisar as características segundo o seu próprio ponto de vista, interessando-se pelo espaço ecológico, pelo espaço econômico, pelo espaço social e pelo espaço mental. Numa tal compartimentação polissêmica, a noção de espaço global, a única realidade da ciência, afunda-se doravante numa extrema confusão. Não se poderá imaginar, na intersecção das diferentes investigações, uma geografia capaz de abarcar esta totalidade complexa? É legítimo pensar que a Geografia saberá, rodeando-se de precauções epistemológicas, incorporar o novo modo de pensar nascido na convergência de múltiplos contributos conceptuais.
O que sempre faltou aos geógrafos, é o que se poderia chamar, pretenciosamente talvez, um paradigma ou mais simplesmente um axioma, uma hipótese de trabalho susceptível de realizar um largo consenso entre eles. Ou antes, encararem sucessivamente várias hipóteses sem se dedicarem inteiramente a nenhuma: determinismo, possibilismo.
"Na ausência de um paradigma ou de uma teoria que aspira a este título, todos os fatos que poderiam desempenhar um papel no desenvolvimento de uma dada ciência correm o risco de aparecerem igualmente importantes...esta maneira de acumular os dados tem como resultado o caos. Num certo sentido, hesita-se em qualificar essa literatura como científica", dizia Thomas S. Kuhn (A estrutura das Revoluções Científicas, 1972).
Anatol Rapoport insiste também na necessidade de um paradigma. Se é verdade, escreve ele, que "o conhecimento de uma verdade científica reside essencialmente na sua capacidade de prover os acontecimentos do mundo real a capacidade de explicação de uma teoria pode, do mesmo modo, ser perfeitamente independente da sua força predicativa" se for capaz de oferecer à inteligência pontos de apoio para a investigação.
É por ter recorrido à única virtude das matemáticas para a elevar ao nível das ciências a “Nova Geografia” iludiu as esperanças nela depositadas, ao esquecer que um paradigma é a fase preliminar necessária à descoberta das leis quantitativas.
Se toda ciência tem necessidade de uma hipótese heurística, uma ideologia pode construir esta base axiomática. Tal é, objetivamente, o caso do freudismo e do marxismo por exemplo. O pensamento marxista inspira a economia, a história, a sociologia, mas não existe uma geografia marxista propriamente dita na França.
Contudo, é evidente que uma análise objetiva faz realçar o domínio das relações de produção na organização do espaço nos países subdesenvolvidos; a introdução da moeda já adulterou suficientemente o sistema de valores para desencadear a valorização da economia, considera-se que em muitas regiões a economia ainda se integra numa racionalidade superior a da vida social determinada pelas relações de parentesco. É o que esclarece os trabalhos de Maurice Godelier.
Apesar de uma indiscutível capacidade explicativa, a análise marxista mostra pouca eficácia quando se trata de justificar a estrutura profunda das entidades espaciais, ordenar as partes construtivas num todo funcional. É por isso que, sem renunciar a elas, A Geografia deverá iniciar-se nas teorias relativas à organização dos conjuntos vivos complexos.
Desde Darwin as ciências edificam-se a partir da noção de evolução. Doravante, é o conceito de organização que constitui, cada vez mais, o seu paradigma comum.
Atrás das unidades que devem estudar, existe, parece-nos, uma realidade profunda feita de relações interdependentes que as originaram; uma complexidade animada por uma lógica interna que permite atingir a razão de ser, funcionamento, de resistir À desorganização e de reproduzir.
Esta “Nova Grelha” (título do livro de Henri Laborit, Rober Lafont, 1974) alicerçou-se nas recentes aquisições da biologia molecular que se esclareceram às custas das noções de informática, de regulações cibernéticas e de sistema. Generalizadora e policonceitual, constitui hoje a melhor abordagem científicas das entidades vivas, há quem visse nela a razão de uma terceira cultura, a das ciências sociais após as ciências exatas e as humanidades, mesmo uma única ciência do homem ultrapassando a compartimentação das ciências humanas.
Em que medida serão estas concepções aplicadas à Geografia?
A investigação de leis, formas idênticas entre fenômenos distintos, não é contestável. Contudo, as generalizações devem ser evitadas, pois levariam primeiramente a um reducionismo simplista e revelar-se-ia como "uma epistemologia obsecional" (F. Meyer). Aquele que se contenta com similitudes para formular uma construção teórica labora em erro, pois a analogia não é identidade e, conhecem-se os abusos do pensamento analógico. R. Garaudy acusa as falsas ciências de utilizar a analogia e métodos seguidos noutras ciências.
Todavia, pode-se admitir como hipótese de partida, com Rh. Roig, "que as correspondências que se encontram entre as diferentes disciplinas constituem mais do que simples similitudes ou analogias e são reveladoras de isomorfismo e identidades estruturais fundamentais". Aliás, não começa uma ciência por um balbuciar metafórico? "todo o progresso científico verdadeiro vem então da analogia" (J. Attali).
Eis-nos no caminho da confirmação do nosso objetivo de tentar construir a Geografia no paradigma que hoje as ciências sociais adotaram. Mas tudo isso tem de se ter em conta respeitando as recomendações ditadas pela prudência.
*Este texto apresenta resumidamente um problema de afirmação da geografia, originário de sua gênese institucional, configurador do estado de quase morte da disciplina nos anos 50.
Bibliografia: